Vida Dupla
20 de março de 2010
É estranho como em meados de 2010 muitas pessoas ainda sintam a necessidade de viver uma vida dupla. Mas também é muito fácil julgar ou mensurar os problemas alheios, o difícil é entender ou até mesmo aceitar a realidade do outro. Por isso mesmo esse assunto ainda é tabu.
Uma pessoa conhecida minha, após 30 anos de casado, separou-se da esposa e assumiu um relacionamento com outro rapaz. Ele tem filhos adultos, o que deveria ser um elo facilitador no caso, mas não foi. Ninguém aceita. Uma das coisas que mais fazem refletir nesta situação é que uma pessoa não torna-se gay, não é uma escolha. Ou ele descobriu sua real sexualidade agora ou viveu amargurado toda uma vida, tentando ser algo que nunca foi. Pai rígido, família coesa, religiosos, bons vizinhos, bons flhos… de repente é como se tudo não valesse nada e a lupa de todos fosse direcionada para uma pessoa: “Você sabia que o pai de fulano é gay?”
Este relacionamento homossexual pode ter começado agora, mas também pode vir de muito tempo. É justo um homem ter que fingir uma vida feliz, vendo o tempo passar e cada dia mais ele está preso neste armário, com medo de mostrar ao mundo quem ele realmente é, assim como de quem ele gosta? E o quão justo é para uma mulher ser casada com alguém que ela nunca conheceu de verdade? Foram 30 anos de uma vida de mentiras onde ninguém foi feliz de fato. Quando algo assim acontece todos os envolvidos sofrem.
Certa vez assisti a uma reportagem que retratava o submundo da prostituição e uma travesti dizia que a grande maioria de seus clientes são homens casados e não utilizam camisinha durante o programa. O repórter indagou se ela não sentia medo de contrair alguma doença e ela dizia que não pois já trabalha em plena rua, sujeita a qualquer tipo de coisa e por isso entrega a vida a própria sorte.
Isso leva a questão para um âmbito ainda mais amplo. Quem são esses homens casados que procuram prazer entre os travestis nas esquinas, prostitutas, mulheres e homens em festas, micaretas, baladas. Quem são esses homens que traem suas esposas com vizinhas, carteiro, cunhada, melhor amigo. Não vou entrar na discussão moral em relação a traição propriamente dita mas as consequências disso. São eles os responsáveis pelo aumento do caso de HIV entre mulheres casadas e fiéis? Expor a família a um risco tão grande em troca de minutos de prazer, sendo quem realmente é, vale a pena? Para alguns esta vida dupla pode ser uma jornada de conhecimento, uma maneira de abandonar o personagem e dar lugar a sua real essencia. Mas fingir por algumas horas é fuga, não resolve. Será que realmente esta vida dupla vale a pena? O sofrimento proveniente do preconceito alheio e de si próprio é maior do que o sofrimento em passar a vida fingindo ser algo que não é? Fica a reflexão.
*Foto: imageplus





















